Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Histórias. Sobre Pessoas. Para Pessoas.


17
Out14

Mestre Salgueiro

por Joana da Silva Santos

Viu o mundo mudar e assistiu à II Guerra Mundial. Fugiu ao regime de Salazar porque não concordava com a sua política. Começou a trabalhar cedo e aos 14 anos aprendeu o ofício de sapateiro. Mais de 30 anos depois decidiu entregar-se ao seu verdadeiro amor: o estudo das plantas medicinais. É ainda campeão de damas e os adjectivos parecem não esgotar-se para uma longa vida que já dura há mais de 90 anos. Deita-se com um caderno à cabeceira para não esquecer as ideias que lhe pairam na cabeça, e só consegue adormecer depois das duas horas da manhã. Foi aguadeiro em feiras e romarias, vendeu sardinhas de monte em monte, trabalhou na ceifa e nas hortas. Aos 17 anos teve um grave problema nos olhos e “curou-se” sozinho com óleo de fígado de bacalhau. Descobriu assim que a sua vocação não estava no ofício de sapateiro, mas na sensibilidade em reconhecer as plantas, que aprendeu enquanto acompanhava a mãe nos trabalhos do campo. Decidiu aprender sozinho tudo o que hoje sabe sobre plantas e mezinhas. Escreveu um livro e está a preparar outro. À mão, porque de computador não percebe nada. Quem olha para José Salgueiro fica confuso e espantado. Os cabelos brancos não deixam adivinhar a idade. A sua presença é forte e imponente. Tem 92 anos, mas o corpo é esguio e cuidado. Os sinais do tempo foram generosos, está de boa saúde e a vida partir dos 90 recomenda-se. Para quem o conhece, é o “mestre” que nasceu em 1919 no Monte da Boavista, próximo de Montemor-o-Novo. O Alentejo é a sua casa, o sítio onde gosta sempre de regressar. “É impossível viver sem regressar às origens”, diz o mestre. O tom é assertivo, e a voz igual à de quem recita um poema. A profissão de sapateiro, que aprendeu aos 14 anos, foi sempre a última das suas paixões, “mas os tempos eram difíceis, tinha mesmo que trabalhar e era isso que fazia de manhã à noite”, começa o mestre. “Tinha um catálogo com os modelos desenhados e era só as pessoas escolherem e eu fabricava o sapato escolhido. Mas foi uma vida de escravatura que não compensava tantas horas de trabalho.” Passados 30 anos decidiu “mandar tudo ao alto” e transformou o espaço, onde trabalhou durante 50 anos como sapateiro, naquela que é a casa de ervanária, a sua paixão, desde os tempos que começou a acompanhar a mãe nos trabalhos do campo. “Com cinco ou seis anos comecei a reparar em tudo o que a minha mãe fazia. Tratava de mim e dos meus irmãos quando estávamos doentes. Quando havia mudança de lua, os mais pequenos, todos nus nos seus braços, eram defumados sobre as brasas onde a minha mãe colocava rosmaninho, alecrim, eucalipto e outras plantas aromáticas desinfectantes”, relembra José Salgueiro. Tem uma horta só sua e cultiva os seus próprios produtos todos os anos. “Em gaiato, com 11 anos, plantei a minha primeira seara de favas e vendia-as depois de secas. Na altura consegui comprar um fato de cotim.” Desde então, o mestre tem dedicado a sua vida ao estudo, colheita, secagem e venda de ervas que encontra e sabe reconhecê-las cada vez que sai para os campos. Explica sem hesitações: “Este processo tem muito que saber. As plantas não se podem colher nem muito descaídas nem muito verdes. Depois de colhidas, são secas à sombra e no escuro, de modo a conservarem a cor de origem, num soalho de madeira, de Maio até Agosto.” A crise parece não ser uma moda do seu tempo e diz que o negócio das “vendas de plantas não corre bem, mas sim muito bem”. Vende em feiras de Norte a Sul do país e recebe em sua casa todos aqueles que procuram as suas mezinhas milagrosas. Praticante de naturismo, acredita que consegue curar as pessoas através das suas plantas medicinais. “Dou consultas a todos aqueles que vêm aqui e me procuram. Normalmente as pessoas procuram-me devido ao problema da falta de memória e o que aconselho nesses casos é o seguinte: comer uma banana por dia, beber chá de erva-cidreira e tomar cápsulas de ginkgo biloba, uma árvore oriunda de países do Extremo Oriente.” Em 2005, publicou o seu primeiro livro “Ervas, Usos e Saberes”, que já vai na 4ª edição. Uma espécie de bíblia sobre mezinhas e plantas que escreveu à mão e que começou a preparar em 1998. Apesar de não ser o primeiro, este é o livro da sua vida:“Acredito que vou deixar um legado importante sobre plantas e as suas aplicações, apesar de já estar a preparar um segundo livro sobre este tema.” Não toma antibióticos, e no único em que acredita é no alho. “Como dois a quatro dentes de alho por dia, misturados no peixe grelhado ou nas saladas. É anti-cancerígeno e anti-diabético, é o meu antibiótico. Deus deu-nos a doença, mas também nos deu a mezinha e foi isso que procurei durante toda a minha vida e é naquilo que acredito.” Aprendeu sozinho tudo o que sabe, e é ainda hoje a cobaia das suas próprias experiências e invenções. Relembra, entre gargalhadas, um episódio que lhe correu muito mal: “Há 30 anos fiz uma experiência com a seiva do pinheiro, só que me esqueci que a seiva só é boa se for filtrada. Tomei duas colheres desta seiva e ficou colada ao estômago. Estive três horas aflito com dores, até que me lembrei do azeite e ao fim de 10 minutos fiquei como novo.” Não sabe se há segredo ou não para os seus 92 anos tão bem vividos, mas adianta que não teria chegado até aqui se não cumprisse certos rituais que são para si sagrados. “Não dispenso as cápsulas de óleo de fígado de bacalhau e a cenoura crua que faz bem aos olhos e que me faz ver ainda hoje as letras mais pequenas. O pequeno-almoço também é o meu segredo: tomo uma colher de linhaça moída para ajudar o intestino, sumo de cenoura com limão e uma tigela com flocos de aveia ou de cevada. Faço também análises de três em três meses e vivo uma vida com regras, sem comida de plástico, sem refrigerantes, sem sal e doces, e bebo metade de um copo de vinho tinto. Até fico doente quando vejo o meu irmão comer tantos pudins e arroz-doces.” Já foi várias vezes à televisão ensinar aquele que pensa ser o seu ensinamento mais precioso: a mezinha para limpar o organismo, e que já ensinou a todos em Montemor. “Somos como máquinas e, por isso, de vez em quando devemos fazer uma limpeza geral. Quando as pessoas querem limpar o organismo devem de manhã, em jejum, numa tigela, colocar duas colheres de sopa de azeite, mais uma colher de sopa de linhaça moída e depois uma colher de sopa de mel, o resto enche-se de água, mistura-se e bebe-se”, explica José Salgueiro com minúcia. O mestre é ainda o poeta-filósofo que, intrometido consigo mesmo desde sempre, já publicou também três livros de poesia. “Sempre olhei para o mundo e para certas questões de maneira sensível e por isso a escrita e a poesia eram uma maneira de me manifestar.” Praticou atletismo, jogou futebol e tocou oboé e saxofone. Lamenta o mestre “não ter tido só uma vocação na vida”: “Sempre gostei de coisas diferentes e uma vida não parece suficiente para me dedicar a todas.” É também o campeão de damas e joga de igual para igual com os mais novos. “Corro o país de Norte a Sul porque quase todas as semanas tenho campeonatos, e quando a memória me falha recorro às minhas plantas que nunca me desapontaram e que me fizeram chegar até aqui”. NOTA:Este perfil foi feito a partir de uma entrevista ao Mestre Salgueiro, em 2011.

JOSÉ SALGUEIRO.jpg

Autoria e outros dados (tags, etc)



Pesquisar

  Pesquisar no Blog


Arquivo

  1. 2015
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2014
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D